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se eu terminasse com meu namorado hoje, seria mentirosa o suficiente para dizer que odiei tudo que ele já fez por mim. eu teria tanto rancor que diria que sempre odiei o perfume dele; nunca o achei bonito de verdade, e, sim, como todos os meus ex-amigos (que não são mais amigos porque não apreciam o bem que ele me faz - hoje, antes de terminar comigo), eu também achava as colocações dele estúpidas e rudes. eu o acharia um monstro, um demônio, meu bicho-papão. ele viveria dentro do meu corpo, comandaria minhas ações irracionais: eu iria à festas que nunca quis ir e amaria pessoas que eu nunca quis amar, e sua voz seria a voz que ressoa na minha cabeça quando eu estou pensando. ele seria meu sub e consciente; me lembraria das minhas obrigações e me diria o quanto eu tenho um corpo horrível quando eu me olhasse no espelho. e por isso ele me deixou.
ele vive em mim hoje e eu nem percebo, mas perceberia se não conseguisse culpá-lo nos intervalos do meu dia, quando lhe digo que vi uma coisa na rua e me lembrei dele, ou que ele foi o protagonista dos meus sonhos a noite inteira. mas, tão fácil quanto isso, eu o odiaria ferventemente se chegasse a me dizer, sem motivo especial, que acabou tudo. eu o mataria com minhas próprias mãos. arrancaria seu coração. socaria sua cara. tão rápido quanto o amei, rasgaria todos os trilhões de páginas que escrevi pra ele e apagaria todas as nossas fotos terríveis. pararia de ver filmes, de ver livros e de ouvir música - não para não me lembrar dele, mas para desfazer minha imaginação fértil, esmagar minha criatividade e impedir que ele seja astro de qualquer outro cenário fictício que eu decidir criar antes de dormir. eu não mais pensaria em palavras, para não ouvir a voz dele. pensaria em preto e branco. imagens preto e branco tristes.
ele seria o grande vilão. o grande babaca. eu o veria pelos olhos dos outros e fingiria não odiar isso, porque, para mim, ele não mais existiria. eu conversaria sobre outros garotos com as minhas amigas e, em casa, sozinha, choraria compulsivamente assistindo Diário de uma Paixão, porque sempre falei para ele como ele era diferente de todos os outros. eu não mais me sentiria bonita, porque ele não me diria todos os dias o quanto eu era linda. não veria o que tem de especial nos meus dias corridos, porque era ele quem me fazia lembrar o quanto isso era importante para mim. eu lembraria dele vendo caras altos, bonitos e fortes. caras baixos que não tinham nada a ver com ele. caras engraçados que me faziam rir como ele fazia. caras sem noção que falavam besteira, que nem ele. caras puxa-saco de quem ele me faria rir se estivesse comigo. caras estranhos que não têm sua lábia. amigos meus de quem ele gosta e que gostam dele. lembraria dele andando na rua e estendendo a mão para o vazio, que não consegue me empurrar para o outro lado da calçada que não encara a avenida. assistindo doramas que nunca gostei de assistir sozinha. fazendo piadas na minha cabeça que nunca faria para outra pessoa além dele. quando eu estiver na aula, sem nada pra fazer, pra quem eu vou mandar mensagem dizendo que odeio estudar?
é claro, algum tempo depois, eu me acostumaria, e nada doeria tanto assim. eu aliviaria seu lado. ele não seria um monstro. eu escutaria minha própria voz na cabeça, de novo. eu veria suas fotos e não pensaria nisso pelo resto do dia. me lembrariam dele e eu diria que já passou. nada seria como antes, mas eu não viveria na dor do depois.
ele ficaria feliz em me ver feliz. provavelmente falaria comigo e perguntaria como anda minha vida. acho que ele sentiria minha falta, e eu sentiria a dele. mas é tudo diferente agora.
(agora, meu namorado ainda existe - e ele ainda é refém desse tipo de pensamento maluco que eu tenho todo santo dia. ele ainda segura minha mão, me empurra para o outro lado da calçada quando estamos na avenida e me faz assistir doramas com ele. mesmo assim, tenho plena consciência de que tudo isso pode acabar. sempre tive. mas não deixo de amar ele; ainda escuto seus absurdos, contribuo com todas as suas ideias malucas e não passo um dia sem falar com ele. talvez seja por isso que ele gosta tanto de mim. eu digo o quanto vou odiá-lo se ele não gostar).
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